Banco digital ampliou sua carteira em 37% em um ano e alcançou lucro recorde, mas avanço dos atrasos e fim do Novo Desenrola colocam qualidade do crédito no centro das atenções.
O crescimento acelerado do Nubank no mercado brasileiro entra em uma nova fase de teste diante do aumento da inadimplência das famílias. Depois de expandir significativamente sua oferta de cartões e empréstimos, inclusive para segmentos de maior risco, o banco digital precisa equilibrar a continuidade dessa estratégia com a capacidade de manter as perdas de crédito sob controle em um ambiente de endividamento elevado e juros ainda pressionando o orçamento dos consumidores.
Os números ajudam a dimensionar o movimento. No segundo trimestre de 2026, a carteira total de crédito do Nubank alcançou US$ 39,4 bilhões, crescimento de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desse total, aproximadamente US$ 26 bilhões estavam concentrados em cartões de crédito, US$ 10,3 bilhões em operações de crédito sem garantia e outros US$ 3,1 bilhões em produtos com garantia. Ao mesmo tempo, a instituição continuou ampliando sua presença no mercado brasileiro e chegou a 139 milhões de clientes globalmente.
A expansão, entretanto, veio acompanhada de uma mudança nos indicadores de atraso. A inadimplência entre 15 e 90 dias recuou para 4,8% no segundo trimestre, mas o índice referente às operações atrasadas há mais de 90 dias avançou para 6,9%, aumento de 0,35 ponto percentual em relação ao trimestre anterior. O próprio Nubank atribuiu parte desse movimento à migração sazonal de atrasos registrados nos primeiros meses do ano.
O cenário coloca a qualidade da carteira no centro das atenções sobre o banco digital. Isso não significa que o Nubank esteja deixando de crescer ou enfrentando deterioração generalizada de seus resultados: a instituição registrou lucro líquido superior a US$ 1 bilhão no segundo trimestre pela primeira vez. A questão agora é observar se a combinação de crescimento do crédito, maior exposição a consumidores de risco mais elevado e inadimplência brasileira pressionada continuará produzindo retornos elevados nos próximos trimestres.
Carteira de crédito do Nubank cresce 37% em um ano
A expansão da carteira é uma das principais características da estratégia recente do Nubank. O banco digital vem aumentando sua presença em diferentes modalidades, mas cartões e empréstimos pessoais continuam ocupando parcela relevante da operação. No segundo trimestre, os cartões responderam por aproximadamente dois terços da carteira total de crédito, reforçando a importância desse produto para a geração de receitas e para o relacionamento cotidiano com os clientes.
O avanço também ocorre no crédito sem garantia, modalidade que tende a apresentar risco maior porque não existe um imóvel, veículo ou outro bem diretamente vinculado à operação como garantia. O Nubank encerrou junho com aproximadamente US$ 10,3 bilhões nessa categoria. A instituição já havia indicado que pretendia ampliar deliberadamente sua exposição a segmentos de maior risco e maior retorno, estratégia que contribuiu para a expansão da margem financeira.
Essa escolha diferencia parcialmente o banco digital de instituições que adotaram uma postura mais cautelosa diante da inadimplência elevada no país. Para o Nubank, a estrutura operacional enxuta é uma das ferramentas que permitem trabalhar com uma carteira de perfil diferente. Sem uma extensa rede física de agências e apoiado fortemente em tecnologia, o banco possui uma estrutura de custos distinta daquela encontrada nos grandes conglomerados tradicionais.
O desafio é fazer com que o retorno obtido com os juros cobrados nessas operações seja suficiente para compensar as perdas provocadas pelos clientes que deixam de pagar. Quanto maior a exposição ao crédito sem garantia, mais importante se torna a capacidade de analisar riscos, ajustar limites e preços e identificar rapidamente mudanças no comportamento financeiro dos consumidores.
Inadimplência acima de 90 dias chega a 6,9%
Os indicadores divulgados pelo Nubank apresentam sinais diferentes dependendo da faixa de atraso analisada. A inadimplência entre 15 e 90 dias terminou o segundo trimestre em 4,8%, uma melhora de 0,16 ponto percentual. Segundo a companhia, boa parte desse movimento refletiu a sazonalidade do período, parcialmente compensada pela expansão intencional para segmentos de maior risco.
Na outra ponta, a inadimplência superior a 90 dias avançou para 6,9%. O aumento foi de 0,35 ponto percentual em relação ao trimestre anterior. O Nubank explicou que o movimento ocorreu principalmente pela migração sazonal de atrasos iniciais registrados no primeiro trimestre para as faixas de atraso mais longas, fenômeno acompanhado regularmente pelas instituições financeiras.
O contexto brasileiro torna esse indicador particularmente relevante. Dados citados pela Folha mostram que a inadimplência das pessoas físicas no país alcançou 7,8% em julho de 2026, alta de 1,1 ponto percentual em doze meses. O elevado comprometimento da renda das famílias também aparece como um fator de atenção para bancos que possuem forte presença em cartões e empréstimos pessoais.
Por isso, um aumento isolado da inadimplência não é suficiente para determinar a trajetória financeira de uma instituição. Para avaliar a situação do Nubank, é necessário acompanhar simultaneamente crescimento da carteira, provisões para perdas, margem financeira ajustada ao risco, comportamento dos atrasos iniciais e capacidade de recuperação das dívidas. Esses elementos ajudam a mostrar se o retorno adicional obtido com a expansão continua compensando o risco assumido.
Novo Desenrola teve Nubank como maior participante
O Novo Desenrola Brasil ganhou importância especial para o Nubank por causa do perfil de sua base de clientes e dos produtos contemplados pelo programa. A iniciativa federal permitiu renegociar dívidas bancárias de consumidores dentro dos critérios estabelecidos pelo governo, abrangendo modalidades como cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia, justamente dois segmentos relevantes para a operação do banco digital.
Dados do Fundo de Garantia de Operações citados pela Folha indicam que o Nubank respondeu por aproximadamente 29% dos contratos renegociados a prazo dentro do programa. Foram mais de 656 mil renegociações parceladas envolvendo a instituição, que totalizaram cerca de R$ 1,2 bilhão depois da aplicação dos descontos. O resultado colocou o Nubank à frente das demais instituições participantes nessa modalidade.
A forte participação pode ser explicada, em parte, pela dimensão da base do banco e por sua presença entre consumidores de baixa e média renda. O Nubank afirmou que sua atuação ajudou a ampliar a inclusão financeira no país e estima ter bancarizado 31,5 milhões de brasileiros. Essa escala aumenta simultaneamente as oportunidades de crescimento e a exposição às oscilações financeiras das famílias.
O Novo Desenrola terminou em agosto, retirando um mecanismo extraordinário que havia facilitado a recuperação de parte das operações inadimplentes. Segundo informações apresentadas pela instituição e citadas pela Folha, o programa reduziu em cerca de 5% o custo de crédito do Nubank e proporcionou uma economia estimada em US$ 85 milhões. A partir de agora, o comportamento da carteira sem esse apoio passa a ser mais um indicador a ser acompanhado.
Lucro recorde mostra outro lado da expansão
Apesar da atenção sobre a inadimplência, os resultados financeiros do segundo trimestre foram fortes. O Nubank alcançou lucro líquido de aproximadamente US$ 1,1 bilhão, superando pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão em um único trimestre. O resultado representou crescimento de 49% em relação ao mesmo período de 2025 e de 17% na comparação com os três primeiros meses de 2026.
A receita bruta atingiu aproximadamente US$ 5,9 bilhões, alta anual de 39%. Já a receita financeira líquida de juros chegou a US$ 3,7 bilhões. A margem líquida de juros alcançou 22,9%, beneficiada pelo crescimento da carteira e pela mudança de composição em direção a modalidades de crédito sem garantia e segmentos considerados de maior risco e retorno.
Outro indicador observado pelo mercado é a margem financeira ajustada ao risco, que procura considerar o impacto das perdas de crédito sobre o resultado das operações. Essa métrica avançou de 9,5% no primeiro trimestre para 12,4% no segundo. O custo do crédito, por sua vez, recuou 9% na comparação trimestral, para US$ 1,7 bilhão.
O retorno sobre o patrimônio líquido, conhecido como ROE, terminou o trimestre em 33%. O conjunto desses números mostra por que o avanço da inadimplência precisa ser analisado junto aos demais indicadores: até o segundo trimestre, o banco conseguiu combinar crescimento da carteira com expansão de receitas, margem e lucro, mesmo operando em segmentos de crédito de risco relativamente elevado.
Modelo digital permite operar com estrutura de custos menor
Uma das principais diferenças entre o Nubank e os grandes bancos tradicionais está na estrutura operacional. A instituição nasceu sem uma ampla rede física de agências e construiu seus serviços em plataformas digitais. Isso reduz determinadas despesas relacionadas à manutenção de imóveis, atendimento presencial e sistemas legados de grandes redes bancárias.
Essa estrutura é relevante quando se analisa o risco de crédito. Uma instituição com custos operacionais menores pode, em determinadas condições, absorver um nível maior de perdas e ainda preservar rentabilidade. Analistas citados pela Folha apontam justamente essa característica ao explicar por que o Nubank consegue trabalhar com níveis de inadimplência estruturalmente diferentes dos observados em algumas instituições tradicionais.
Isso não elimina o risco. Se as perdas aumentarem mais rapidamente do que a receita gerada pelos empréstimos, a vantagem de custos pode ser reduzida. Da mesma forma, a expansão para consumidores com maior capacidade financeira pode exigir produtos, atendimento e benefícios diferentes daqueles que impulsionaram o crescimento inicial do banco.
A combinação entre tecnologia, escala e análise de dados continuará sendo fundamental para essa estratégia. Com uma base de clientes muito ampla, pequenas mudanças no comportamento de pagamento podem representar impactos significativos em valores absolutos, tornando sistemas de análise e concessão de crédito elementos centrais para a sustentabilidade do crescimento.
Nubank também tenta avançar entre clientes de renda mais alta
Enquanto administra o crescimento do crédito para sua ampla base de consumidores, o Nubank também procura aumentar sua participação entre clientes de renda média e alta. A estratégia busca elevar a quantidade de produtos utilizados por cada cliente e aumentar a receita gerada por relacionamento, reduzindo a dependência de uma única modalidade.
O Ultravioleta é uma das principais iniciativas direcionadas a esse público, enquanto novas categorias de relacionamento ampliam a segmentação da base. A lógica é oferecer cartões, investimentos, seguros, crédito e outros serviços dentro do mesmo ecossistema, estimulando o cliente a concentrar uma parcela maior de sua vida financeira na instituição.
Essa expansão apresenta um desafio diferente. Em operações de valores maiores, a vantagem proporcionada por uma estrutura de custos mais baixa pode representar proporcionalmente menos do que em empréstimos pequenos. Além disso, consumidores de renda elevada normalmente já possuem relacionamento com vários bancos e acesso a produtos sofisticados, aumentando a competição por esse público.
Ainda assim, o mercado brasileiro continua sendo central para os planos da companhia. Mesmo com a expansão internacional, a administração do Nubank avalia que existe espaço significativo para aumentar a receita por cliente no Brasil. A capacidade de ampliar esse relacionamento sem elevar excessivamente o risco de crédito será uma das variáveis importantes para os próximos anos.
Expansão internacional adiciona uma nova frente de investimentos
O Nubank também está deixando de ser uma operação concentrada exclusivamente no mercado brasileiro. A instituição já possui presença relevante no México e na Colômbia e iniciou em setembro sua operação nos Estados Unidos, inicialmente utilizando uma estrutura baseada em parceria bancária enquanto avança em seu processo regulatório próprio.
No México, a companhia planeja continuar ampliando seus investimentos e sua base de clientes. O país representa uma oportunidade importante devido ao tamanho do mercado e à menor penetração de determinados serviços financeiros digitais em comparação com o Brasil. A Colômbia também integra essa estratégia regional de longo prazo.
Nos Estados Unidos, a empresa entrou em um ambiente muito mais competitivo e fragmentado, com bancos tradicionais, fintechs e plataformas tecnológicas disputando clientes. O projeto amplia o potencial de crescimento global, mas também exige investimentos em tecnologia, marketing, regulação, contratação de profissionais e adaptação dos produtos às características locais.
A expansão internacional, portanto, acrescenta outra variável à equação financeira do Nubank. O banco precisa continuar investindo nos novos mercados ao mesmo tempo em que administra uma carteira brasileira cada vez maior. Esse equilíbrio entre expansão geográfica, crescimento do crédito e rentabilidade deverá permanecer entre os principais pontos acompanhados nos próximos resultados.
O que acompanhar nos próximos resultados do Nubank?
Um dos primeiros indicadores será a inadimplência acima de 90 dias. Depois de chegar a 6,9% no segundo trimestre, sua evolução ajudará a mostrar se o movimento observado foi predominantemente sazonal ou se existe uma deterioração mais persistente da capacidade de pagamento dos clientes.
Também será importante observar os atrasos entre 15 e 90 dias. Como essa faixa pode antecipar parte das operações que posteriormente migram para inadimplência mais longa, sua evolução oferece pistas sobre a qualidade da carteira antes que eventuais perdas apareçam integralmente nos resultados.
Outro ponto será o desempenho da carteira após o encerramento do Novo Desenrola. A participação expressiva do Nubank no programa mostrou o peso das renegociações para sua base de clientes. Sem esse mecanismo extraordinário, a capacidade própria da instituição de recuperar dívidas e renegociar contratos ganha ainda mais relevância.
Por fim, o mercado deverá acompanhar se o banco consegue preservar sua elevada rentabilidade enquanto continua expandindo o crédito. Os resultados recentes mostram crescimento forte e lucro recorde, mas o ambiente de endividamento elevado das famílias adiciona uma variável importante. O teste para o Nubank será continuar crescendo sem permitir que o custo das perdas avance mais rapidamente do que os ganhos proporcionados pela expansão da carteira.
Fontes: Nubank — resultados oficiais do segundo trimestre de 2026 · Folha — inadimplência coloca crescimento do Nubank à prova · Folha — Nubank liderou renegociações do Novo Desenrola · Nubank — informações sobre o Novo Desenrola Brasil 2026.