Projeto muda de tecnologia, adia o uso público e reacende dúvidas sobre o futuro do real digital no país.
O Drex, moeda digital brasileira desenvolvida pelo Banco Central, entrou em uma nova fase de testes neste ano, mas o caminho até chegar ao público segue incerto. Depois de encerrar a plataforma tecnológica usada na fase piloto, a autoridade monetária redesenhou parte do projeto e adiou qualquer previsão de uso popular. Para quem acompanha o assunto há anos, a pergunta que fica é simples: afinal, o Drex vai mesmo sair do papel, ou o projeto perdeu força?
Essa dúvida ganhou peso depois que o Banco Central desligou a plataforma baseada em Hyperledger Besu, tecnologia de registro distribuído que sustentava os testes desde 2023. A decisão, comunicada pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo, indicou que o modelo testado não se mostrou viável para os objetivos do projeto, embora sem detalhar tecnicamente os problemas encontrados.
O que já mudou no projeto
A principal alteração foi o fim do uso da tecnologia blockchain pública que caracterizava a primeira versão do Drex. Segundo informações apuradas pela Exame, a plataforma testada desde 2023 foi desligada por completo, e o Banco Central optou por buscar uma arquitetura considerada mais flexível, com camadas adicionais de segurança e privacidade para os dados envolvidos nas transações.
Essa mudança de rota não significa o cancelamento do projeto, mas sim um recomeço técnico. Durante o LIFT Day realizado em Brasília em março, ficou claro que a nova fase vai se concentrar em um problema mais concreto do sistema financeiro nacional, a reconciliação de gravames, processo que hoje envolve etapas manuais e burocráticas para registrar garantias de crédito. Com isso, o foco do Drex deixou de ser apenas simbólico e passou a mirar uma solução prática para instituições financeiras, cartórios e corretoras.
Enquanto o Banco Central reorganiza a tecnologia pública, o mercado privado de tokenização de ativos reais avançou de forma acelerada no Brasil. De acordo com dados levantados pela plataforma DeFin, esse mercado cresceu mais de 2.000% em um ano, somando bilhões de reais em emissões, com destaque para redes como a XDC Network, que hoje lidera o volume de ativos tokenizados no país.
Quando o Drex chega ao público
Um dos pontos que mais gera confusão é o prazo para o uso popular da moeda digital. Diferentemente do que muitos brasileiros imaginam, o Drex não nasceu para substituir o Pix nem para ser usado diretamente por pessoas físicas em compras do dia a dia. Sua primeira versão, prevista para ganhar corpo ao longo de 2026, deve funcionar de forma restrita, com uso interno entre bancos, cartórios e corretoras, sem abertura imediata para o consumidor final.
Essa limitação inicial explica por que boa parte da cobertura sobre o tema tem títulos alarmistas, sugerindo que o projeto teria sido abandonado. Na prática, o que ocorreu foi uma reavaliação de prioridades. O Banco Central sinalizou que pretende retomar os estudos sobre tokenização com uma arquitetura chamada de agnóstica, termo usado para descrever um ambiente capaz de operar com diferentes tecnologias sem ficar preso a uma única solução.
Vale reforçar que o Drex é uma moeda digital emitida e garantida pelo próprio Banco Central, com paridade de um para um com o real físico, o que o diferencia totalmente de criptomoedas como o Bitcoin, que não têm garantia estatal e funcionam de forma descentralizada. Essa distinção costuma ser motivo de confusão entre o público, especialmente em um momento em que o tema criptoativos ganha cada vez mais espaço no noticiário econômico.
Por que o tema interessa ao consumidor comum
Mesmo que o uso do Drex ainda esteja restrito ao mercado financeiro, o projeto tem potencial para afetar a vida do cidadão de forma indireta e relevante. A promessa é que a tokenização de garantias facilite o acesso a crédito, reduzindo custos operacionais e, eventualmente, os juros cobrados de pessoas físicas e empresas. Um sistema mais ágil para registrar e reconhecer garantias tende a diminuir a burocracia hoje enfrentada por quem busca financiamento.
Outro ponto de atenção é o ritmo do projeto. Iniciado em 2020 sob o nome de Real Digital, o Drex já passou por duas fases piloto e teve o cronograma ajustado mais de uma vez, sempre em razão de questões ligadas a segurança cibernética e maturidade tecnológica. Isso mostra que o Banco Central prioriza cautela a velocidade, o que tende a se repetir agora, na terceira fase do projeto.
Para quem acompanha o setor de bancos digitais, o desenrolar do Drex funciona como um termômetro de como o país pretende integrar tecnologia, crédito e segurança de dados nos próximos anos. A tendência é que novidades concretas sobre prazos e funcionalidades sejam anunciadas ao longo do segundo semestre, à medida que o Banco Central definir a nova base tecnológica do projeto.
Por ora, o recado é de continuidade com ajustes, não de encerramento. O real digital brasileiro segue em construção, com um caminho mais realista e menos dependente de blockchain pública do que se imaginava em 2023. Resta acompanhar se a nova arquitetura vai, enfim, entregar o que o projeto prometeu desde o início: um sistema financeiro mais rápido, seguro e acessível.
Fontes:
Exame | DeFin Insights | Central do Varejo