Fintech avaliada em US$ 68 bilhões recebeu aprovação para operar como banco nos EUA e mira consumidores mal atendidos pelos grandes bancos.
O Nubank, maior banco digital da América Latina, decidiu encarar um dos mercados mais disputados do mundo: o sistema bancário dos Estados Unidos. Em janeiro, a instituição recebeu aprovação condicional para operar com um estatuto bancário federal norte americano, marco que impõe prazos claros à empresa. A pergunta que ronda analistas e clientes é inevitável: depois de conquistar mais de 115 milhões de clientes no Brasil, o Nubank também vai conseguir se firmar em um país onde bancos europeus de peso já fracassaram?
A aprovação obtida em janeiro estabelece que o Nubank precisa injetar capital em seu banco americano até fevereiro de 2027 e abrir as portas ao público até meados de 2027, segundo reportagem publicada pela revista Forbes. É um cronograma apertado para uma operação que envolve regras regulatórias bastante diferentes das encontradas no Brasil, no México ou na Colômbia, países onde o banco já opera.
Por que o mercado americano é visto como um desafio
A trajetória de instituições estrangeiras nos Estados Unidos ajuda a explicar o ceticismo de parte do mercado. O banco espanhol BBVA vendeu sua operação americana ao PNC em 2021, o alemão N26 recuou do país no mesmo ano, apenas dois anos após chegar, e o britânico Monzo encerrou sua tentativa há poucos meses. Mesmo o Chime, maior desafiante digital nascido nos próprios Estados Unidos, acumula participação de mercado inferior a 5% depois de 12 anos de operação e bilhões de dólares investidos.
Diante desse histórico, o cofundador e CEO do Nubank, David Vélez, afirma ter um plano específico para evitar os mesmos erros. Segundo ele, a estratégia envolve uma abordagem cirúrgica, sem disputar diretamente os 10% de clientes mais ricos do país, público já bem atendido por bancos como JPMorgan Chase e Bank of America. A aposta está em nichos e regiões onde consumidores seguem mal atendidos pelas instituições tradicionais.
Vélez, colombiano de 44 anos nascido em Medellín, construiu uma fortuna estimada em US$ 13 bilhões à frente do Nubank, criado originalmente como um cartão de crédito em 2014. De lá para cá, a empresa cresceu até somar 115 milhões de clientes no Brasil, mais 15 milhões no México e cerca de 5 milhões na Colômbia, com receita de US$ 16 bilhões e lucro líquido de US$ 3 bilhões no último ano fiscal, conforme os dados apurados pela Forbes.
Como deve funcionar a operação nos Estados Unidos
Quando o banco começar a operar em território americano, a expectativa é de um portfólio inicial enxuto, com conta corrente, cartão de débito, cartão de crédito e uma opção de poupança com rendimento competitivo. Empréstimos pessoais devem chegar em um segundo momento, segundo Cristina Junqueira, cofundadora e diretora de crescimento do Nubank, que se mudou para Miami no ano passado para liderar a expansão.
Um fator que pode ajudar o Nubank a ganhar tração inicial é a presença de mais de um milhão de brasileiros, mexicanos e colombianos que vivem ou viajam com frequência aos Estados Unidos e já pedem à empresa uma versão local do serviço. Essas comunidades latinas, que somam cerca de 68 milhões de pessoas no país, representam um ponto de partida natural, embora a empresa afirme não estar construindo um produto voltado exclusivamente a esse público.
A inteligência artificial também deve ter papel central na operação americana. O Nubank utiliza um modelo próprio batizado de NuFormer, construído com a mesma base de pesquisa que sustenta ferramentas como o ChatGPT, mas voltado a prever risco de crédito e inadimplência. A empresa quer usar essa tecnologia também nos Estados Unidos, mas ainda avalia até que ponto isso é possível diante das leis americanas de combate à discriminação em concessão de crédito, mais rígidas do que as encontradas nos outros mercados onde o banco atua.
Os riscos que cercam a expansão
Apesar do otimismo da diretoria, especialistas do setor bancário apontam riscos reais. O mercado americano conta com cerca de quatro mil bancos, outras quatro mil cooperativas de crédito e centenas de fintechs voltadas a serviços financeiros para o consumidor, um grau de concorrência muito acima do encontrado em qualquer outro país onde o Nubank já operou.
O custo de aquisição de clientes também preocupa analistas. Como exemplo, a fintech SoFi gastou US$ 1,1 bilhão em marketing no último ano para conquistar 3,6 milhões de clientes, enquanto o Chime investiu US$ 635 milhões para adicionar 1,5 milhão de usuários ativos. Questionada sobre o custo esperado para atrair clientes nos Estados Unidos, a própria Junqueira admitiu que a empresa ainda não sabe o valor exato, e só vai descobrir depois do lançamento oficial da operação.
Vélez, por sua vez, afirma que pretende limitar os gastos com a expansão americana para que o impacto na eficiência consolidada da empresa não ultrapasse um ponto percentual, o que sugere um investimento entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões por ano no projeto, segundo estimativa da Morningstar citada pela Forbes. Independentemente do resultado, a tentativa do Nubank de romper a fortaleza bancária americana já é vista como um dos movimentos mais ousados do setor fintech em 2026, e deve servir de referência para outras instituições latino americanas que sonham com o mesmo caminho.
Fonte:
Forbes