Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, aponta que a relação entre gestão de resíduos sólidos e segurança alimentar urbana raramente aparece de forma explícita nas políticas públicas das cidades brasileiras, embora os dois temas estejam conectados por cadeias de causa e efeito diretas e mensuráveis. Afinal, a destinação inadequada de resíduos orgânicos, a contaminação de solos e recursos hídricos por chorume e a proliferação de vetores associados ao descarte irregular afetam diretamente a qualidade dos alimentos produzidos, distribuídos e consumidos nas cidades. Por conseguinte, ignorar essa conexão é tratar sintomas enquanto a causa permanece sem enfrentamento estrutural.
Neste artigo, apresentamos os principais pontos de intersecção entre essas duas agendas e por que sua integração é urgente.
Como o descarte inadequado de resíduos compromete a produção de alimentos?
A agricultura urbana e periurbana, que abastece uma parcela crescente da população nas grandes cidades brasileiras, é diretamente vulnerável à contaminação ambiental gerada pelo descarte inadequado de resíduos. Isso porque hortas comunitárias, pomares urbanos e pequenas propriedades periféricas que utilizam água de córregos contaminados por chorume ou cultivam em solos com histórico de deposição irregular de resíduos estão sujeitas à absorção de metais pesados, patógenos e compostos orgânicos persistentes pelos alimentos produzidos. Essa contaminação raramente é visível e quase nunca é monitorada de forma sistemática pelas autoridades sanitárias municipais.

Conforme analisa Marcello José Abbud, a proximidade entre áreas de descarte irregular de resíduos e zonas de produção de alimentos em periferias urbanas é um fator de risco sanitário que cresce à medida que a agricultura urbana se expande sem o correspondente avanço na cobertura e na qualidade dos sistemas de coleta e destinação de resíduos nessas áreas. De fato, a integração entre vigilância sanitária, gestão de resíduos e fomento à agricultura urbana é uma lacuna de governança que precisa ser endereçada com prioridade nas cidades que buscam avançar na agenda de segurança alimentar.
Resíduos orgânicos, compostagem e a produção de alimentos urbanos
A fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos, que representa entre 50% e 60% do volume total coletado nas cidades brasileiras, é simultaneamente um problema de gestão e uma oportunidade de produção de insumos para a agricultura. Isso porque, quando destinada a aterros sanitários, essa fração contribui para a geração de metano e chorume, com impactos ambientais de longa duração. Por sua vez, quando tratada por compostagem ou biodigestão, transforma-se em composto orgânico e biofertilizante de alto valor agronômico, com demanda crescente entre produtores urbanos e periurbanos que buscam alternativas aos fertilizantes sintéticos de custo elevado.
Segundo Marcello José Abbud, municípios que estruturam sistemas de compostagem integrados à agricultura urbana criam um ciclo virtuoso que reduz o volume de resíduos destinados a aterros, diminui os custos de produção dos agricultores urbanos e fortalece os sistemas locais de produção de alimentos. A escala desse benefício é proporcional à cobertura do sistema de coleta seletiva de orgânicos e à capacidade de processamento instalada, o que torna o investimento em infraestrutura de compostagem uma política simultaneamente ambiental e de segurança alimentar.
Vetores, contaminação e os riscos para a cadeia alimentar urbana
O descarte irregular de resíduos em áreas urbanas cria condições favoráveis para a proliferação de vetores como ratos, baratas e moscas, que transitam entre os locais de acumulação de resíduos e os pontos de produção, armazenamento e comercialização de alimentos. A contaminação cruzada por patógenos transportados por esses vetores é um dos principais mecanismos de transmissão de doenças de origem alimentar nas cidades brasileiras, especialmente em bairros periféricos, onde a cobertura de coleta é irregular e a densidade de pontos de descarte inadequado é elevada.
Na perspectiva de Marcello José Abbud, tratar a gestão de resíduos como política de segurança alimentar implica reconhecer que a cobertura universal da coleta, a eliminação de pontos de descarte irregular e o tratamento adequado da fração orgânica são medidas com impacto direto sobre a qualidade dos alimentos que chegam à mesa das famílias urbanas. Em suma, integrar essas dimensões no planejamento municipal é uma condição para que as políticas de segurança alimentar produzam resultados consistentes e duradouros nas cidades brasileiras.